terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Aos que falam de pobreza....

Cheguei agora do Supermercado. Só fui lá para pôr a roupa a secar nas máquinas.
Havia uma fila enorme de gente à espera e decidi voltar mais tarde. 
À saída encontrei uma miúda de 14 ou 15 anos com um pequenito de 4 ao colo acercou-se a mim para me pedir ajuda.
Falava tão baixinho que eu não conseguia perceber muito bem o que ela realmente queria.
A primeira coisa que lhe disse foi: "olha, não tenho aqui dinheiro, eu só vim cá para secar a roupa. 
Vi logo no seu rosto a desilusão e o desespero...
Ao ler aquela reacção perguntei-lhe "que tipo de ajuda precisas?"
" preciso de comprar um leite especial Nan para este meu irmãozinho que foi operado há muito pouco tempo aos intestinos e só pode beber desse leite. "
E apressou-se a acrescentar "tenho aqui 5 euros que uma outra senhora me deu..." e, enquanto me estendia uma nota de cinco: "... Se quiser dou-lhe este dinheiro e se a senhora puder pôr o resto, entrava ao supermercado e comprava-me o leite".
Subiu a camisola do menino e a criança estava com todo o ventre aberto, com vários pensos e até um catéter.
Senti-me miserável naquele momento... 
Apesar de não ter dinheiro que me sobre, tudo pelo contrário, dei-lhe os únicos 10 euros que tinha nesse momento e disse-lhe: "onde moras? vives aqui perto? 
Ela respondeu: vivo no bairro social da Câmara (que fica no outro extremo da cidade e a chover intensamente)
Eu: e como vieste até aqui?
ela: a pé... (o Intermarché, Póvoa de Sobrinhos, a mais de 10 quilómetros)
eu: então vai lá dentro comprar o leite que eu levo-te.
ela: se estiver disposta a esperar por mim um bocadinho... é que estou à espera duma outra senhora que entrou lá dentro para fazer compras e disse-me que me compraria fraldas para o menino...
eu: vocês não têm algum apoio para esta situação?
ela: estamos à espera que saia o subsídio...
Fiquei com o coração apertado... Tudo o que ela disse era verdade... Senti remorsos por ter ficado de pé atrás no principio da conversa. 
Há de tudo nas ruas... e normalmente vemos o tipo de pessoas que vem pedir e o destino que o pouco dinheiro que dermos vai ter, mas isto foi diferente... Aliás: situações como esta começam a ser a regra...
Não há justiça social... conheço muitas pessoas que recebem apoio do Estado e que realmente não o precisam, muitas que tem o chamado escalão "A" injustamente pois têm os pais a trabalhar e em muitos casos ganham bem; Estudantes universitários a trabalhar para poderem ajudar os pais a pagar as propinas e outros nada carenciados a receber as bolsas e alojamento nas residências estudantis com os seus carrinhos novos estacionados lá fora....
Tudo neste momento está a ser injusto...
Quem precisa não recebe ajuda de lado nenhum, quem precisa menos e tem alguma "cunha" acomoda-se e o resto "que se lixe!"
Fico bastante incomodada quando algumas pessoas me falam de Crise e de Pobreza, quando realmente não fazem a mínima ideia do que é passar por este tipo de situações.
Já há cada vez menos gente que pratique a SOLIDARIEDADE, que em nada tem a ver com caridadezinha ou com a esmola para aplacar as consciências cristãs.
Não fechemos os olhos... Estejamos atentos a tudo aquilo que nos rodeia, não sejamos cegos e pretendamos fingir que tudo está bem.
Porque não está...
Vejam bem quando falam que estão a passar mal.
Saibam valorizar tudo aquilo que têm e deixem de se queixar pelo fútil que não têm e pelo excedentário que não podem comprar... Mas não se calem! Canalizem (canalizemos) as energias para gritar pelos que não têm voz, pelos que não fazem manchetes dos jornais, pelos que vivem e morrem na sombra e no silêncio.
A felicidade está em ver tudo aquilo que temos, mesmo até as coisas mais pequenitas do dia-a-dia que são as que nos trazem grandes satisfações... 
Solidarizem-se com o próximo e eduquemos aos nossos filhos para que ajudem a mudar esta sociedade injusta na que vivemos, para que no dia de amanhã não tenhamos que nos arrepender de ter uma sociedade pior ainda do que esta.
Porque pior é ainda possível. Creiam-me...
Mas melhor (creiam-me também) será, algum dia, inevitável!!
Quem não vê é porque não quer ver...